Entidades médicas desmentem epidemia de micropênis e condenam uso indevido de testosterona
Uso indiscriminado de testosterona em crianças pode afetar crescimento e fertilidade; diagnóstico exige avaliação profissional rigorosa
A Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em conjunto com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), a Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM) e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Pediátrica (CIPE), emitiu um alerta oficial nesta quarta-feira, 25. O comunicado visa combater a disseminação de vídeos virais que alegam falsamente a existência de uma epidemia de micropênis e incentivam a aplicação de hormônios em crianças. Segundo as entidades, essas publicações geram pânico desnecessário ao sugerir uma suposta janela de oportunidade para tratamento que, se perdida, resultaria em problemas na vida adulta, ignorando os graves riscos da administração hormonal sem indicação clínica precisa.
Especialistas advertem que a terapia hormonal não supervisionada pode acarretar danos irreversíveis ao desenvolvimento infantil. Roni de Carvalho Fernandes, presidente da SBU, esclarece que “O uso indiscriminado da testosterona de forma precoce pode fechar as cartilagens de crescimento, antecipar a puberdade e até mesmo causar problemas de fertilidade na vida adulta”. Além disso, o tratamento pode criar uma falsa percepção de eficácia. O uropediatra Marcos Gianetti Machado explica que, “Ao administrá-los antes da puberdade, pode ocorrer um aumento do tamanho peniano, o que gera satisfação nos pais e a impressão de que o tratamento foi eficaz. No entanto, esse crescimento representa apenas uma antecipação do que ocorreria naturalmente durante a puberdade, e não um ganho real adicional”.
Dificuldades no diagnóstico e erros de medição caseira
A avaliação do órgão genital requer conhecimento técnico e ambiente adequado, sendo suscetível a erros quando realizada por leigos. Fatores como a temperatura do local, o nervosismo da criança e condições físicas como a obesidade podem alterar a percepção visual, levando a falsos diagnósticos de pênis embutido. Um levantamento realizado pela SBU no final de 2025 revelou a discrepância entre a visão dos responsáveis e a realidade anatômica. Durante o estudo, constatou-se que pais que acreditavam que seus filhos tinham órgãos abaixo da média subestimavam o tamanho em cerca de 2,5 a 3 centímetros. Nenhum dos meninos examinados apresentava, de fato, a condição clínica, evidenciando o desconhecimento sobre a anatomia normal.
Clinicamente, o micropênis é uma condição rara, caracterizada por um tamanho 2,5 desvios-padrão abaixo da média para a idade, devendo ser identificado preferencialmente nos primeiros anos de vida. É fundamental compreender que o desenvolvimento genital não é linear. Machado destaca a fisiologia do crescimento infantil: “Um ponto importante é que, no desenvolvimento normal da criança, entre os 4 e os 11 ou 12 anos, praticamente não há crescimento peniano. Nesse período, o corpo pode crescer, mas o genital tende a permanecer praticamente inalterado”. Portanto, a ausência de aumento significativo nessa faixa etária é esperada e não indica, isoladamente, uma anomalia que necessite de intervenção medicamentosa.
Expectativas irreais e influência da adultização precoce
O crescimento genital mais expressivo ocorre naturalmente durante a puberdade, impulsionado pela elevação das concentrações de testosterona. Antes disso, ocorre apenas um breve aumento durante a chamada minipuberdade, nos primeiros meses de vida. A preocupação excessiva com o tamanho reflete um fenômeno social de adultização, onde expectativas de sexualidade são projetadas na infância. O uropediatra do Hospital Sírio-Libanês alerta para o impacto do consumo de conteúdo adulto e da pressão estética sobre os pais e as crianças. Machado finaliza com uma reflexão necessária sobre o tema: “É importante refletir se a exposição indiscriminada a conteúdos inadequados, como materiais pornográficos, não está contribuindo para essas expectativas irreais e para uma sexualização precoce, que é extremamente prejudicial”.



