A polêmica lei do Canadá que pode mudar a constituição e proibir símbolos religiosos no trabalho
Julgamento do projeto de lei 21 avalia uso da cláusula não obstante e seus impactos nos direitos fundamentais e na liberdade religiosa no país
A Suprema Corte do Canadá iniciou a análise de uma legislação controversa proveniente da província de Quebec, que impõe restrições ao uso de símbolos religiosos por servidores públicos em posições de autoridade, incluindo juízes, policiais e professores. O caso, que envolve o Projeto de Lei n° 21, transcende a questão da liberdade religiosa e toca em pontos sensíveis sobre a unidade nacional e o equilíbrio de poder entre o judiciário e os legisladores eleitos. Especialistas jurídicos apontam que a decisão final poderá redefinir a aplicação de direitos constitucionais no país, testando os limites da autonomia provincial frente à Carta de Direitos e Liberdades canadense.
A legislação foi aprovada em 2019 pela Coalizão Avenir Quebec (CAQ) e, para blindar a medida contra contestações judiciais imediatas, o governo provincial utilizou a chamada “cláusula não obstante”. Este dispositivo legal permite que governos ignorem temporariamente certas garantias constitucionais, como a liberdade de religião e a igualdade. A diretora-executiva da Fundação da Constituição Canadense, Christine Van Geyn, ressalta a magnitude do julgamento ao afirmar que “Este provavelmente será o caso constitucional mais importante de toda uma geração”. A cláusula tem validade de cinco anos, sujeita a renovação, funcionando teoricamente como uma válvula de segurança política.
Riscos aos direitos civis
Entidades de defesa dos direitos humanos, como a Associação Canadense de Liberdades Civis (CCLA), alertam para os perigos do uso expansivo desse mecanismo legal. Em um artigo de opinião, a organização questionou os limites dessa prerrogativa estatal: “Um governo poderá invocar a cláusula para proibir o aborto? Para criminalizar o discurso político crítico ao governo? Para legalizar a tortura?”. A entidade argumenta que a validação irrestrita da lei criaria um precedente perigoso, onde “Segundo a lógica do governo de Quebec, mesmo nestes casos, a Justiça não só ficaria impotente, mas também restrita ao silêncio”. Críticos também sustentam que a norma afeta desproporcionalmente minorias religiosas, dificultando sua integração no serviço público.
Por outro lado, o governo de Quebec defende a medida como essencial para a manutenção da laicidade do Estado, um valor fundamental para a identidade da província, comparável ao modelo francês. A administração provincial argumenta que a utilização do dispositivo constitucional é legítima e estava prevista no acordo que repatriou a Constituição do Reino Unido na década de 1980. Na petição apresentada ao tribunal, a defesa de Quebec sustenta que “De certa forma, o Capítulo 33 constitui uma das bases do Estatuto Canadense”, referindo-se à seção que contém a cláusula de exceção, utilizada historicamente como moeda de troca para garantir a adesão das províncias ao sistema federal.
Análise da suprema corte
O cenário atual preocupa juristas que observam um aumento na frequência de uso desse recurso por diferentes províncias para aprovar leis polêmicas. Errol Mendes, professor de direito da Universidade de Ottawa, destaca que os alertas sobre a amplitude do dispositivo eram justificados. “Agora, nossas previsões estão se tornando realidade, pois começou lentamente a haver cada vez mais uso da cláusula”, pontua o acadêmico. As audiências atuais marcam a primeira vez desde 1988 que a Suprema Corte do Canadá se debruça sobre um questionamento direto a essa ferramenta constitucional, com a participação de mais de 50 partes intervenientes, incluindo o governo federal e grupos civis.



