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Brasil tem 3 milhões de jovens vítimas de violência online em um ano

Estudo mostra que Instagram e WhatsApp são os principais canais utilizados por agressores contra adolescentes de 12 a 17 anos

Um relatório inédito do Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) revela que 19% dos adolescentes de 12 a 17 anos no Brasil sofreram exploração ou **violência íntima** facilitada pela tecnologia nos últimos 12 meses. Esse índice representa um universo de aproximadamente 3 milhões de vítimas no país. O levantamento, intitulado “Disrupting Harm in Brazil”, aponta que ferramentas digitais são amplamente utilizadas para produzir e divulgar conteúdos de natureza sensível, aliciar menores e realizar ameaças contra a integridade desses jovens.

A pesquisa detalha a dinâmica das agressões, indicando que em 66% dos relatos a violência ocorreu por meio de canais online. O Instagram, citado em 59% dos casos, e o WhatsApp, mencionado em 51%, figuram como os aplicativos mais utilizados nesse contexto. Outro dado relevante mostra que, em 49% das ocorrências, o autor da violência era alguém conhecido da vítima, o que torna a identificação do problema ainda mais complexa. O silêncio prevalece em muitas situações, visto que 34% dos entrevistados afirmaram que não contaram a ninguém sobre o que haviam vivenciado.

Impactos na saúde e uso de inteligência artificial

As consequências para o bem-estar psicológico dos jovens são expressivas e preocupantes. O estudo indica que as vítimas apresentam taxas de **tensão emocional** 13 pontos percentuais superiores às de jovens que não passaram por essas situações de violência. Além disso, o documento detalha que crianças vitimizadas têm 5,4 vezes mais chances de praticar autolesão e 5 vezes mais chances de ter pensamentos de **tirar a própria vida**. Uma jovem de 16 anos relatou a abordagem sofrida durante a pesquisa: “Ele também já tinha enviado diversas fotos. ‘Minha p*, minha gostosa. Quero ficar contigo’, me mandou um monte de mensagem”.

O levantamento também identificou o uso de novas tecnologias para a prática de crimes, com 3% dos participantes relatando que alguém utilizou ferramentas de inteligência artificial para criar imagens ou vídeos de conteúdo adulto utilizando sua aparência. Sobre essa dinâmica tecnológica, Marium Saeed, especialista do UNICEF, afirmou que “as tecnologias digitais não estão necessariamente criando formas totalmente novas de violência. Em vez disso, elas muitas vezes facilitam e ampliam formas já existentes de exploração e abuso”. Casos recentes em escolas, envolvendo montagens falsas, ilustram a gravidade dessa tendência.

Legislação e medidas de proteção digital

A recorrência e a gravidade desses casos impulsionaram o debate nacional sobre novas leis, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Digital e projetos voltados ao combate da “adultização” de menores na internet. Recentemente, investigações resultaram na condenação do influenciador Hytalo Santos por produção de conteúdo impróprio envolvendo adolescentes. As novas diretrizes legislativas buscam estabelecer obrigações mais rígidas para provedores de serviços digitais, incluindo a exigência de mecanismos eficazes de verificação de idade e a vedação da autodeclaração como único critério para acesso às plataformas.

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