Fim da trégua: Rússia lança centenas de drones contra cidades ucranianas
Ofensiva atinge infraestrutura energética e deixa milhares sem aquecimento em meio a temperaturas de -25°C na Ucrânia
A Rússia deflagrou nesta terça-feira (3) a sua mais intensa ofensiva aérea contra a Ucrânia no ano corrente, utilizando um arsenal combinado de aproximadamente 70 mísseis e 450 drones. A operação militar de larga escala visou instalações de infraestrutura energética em pelo menos seis regiões do país, além de atingir áreas residenciais em grandes centros urbanos como Kiev, Kharkiv, Dnipro, Sumy e Odessa. O ataque ocorre imediatamente após o término de um período de suspensão das hostilidades contra grandes cidades e redes de energia, que havia sido acordado pelo presidente russo Vladimir Putin até o último domingo (1°), atendendo a um pedido direto do líder norte-americano Donald Trump. Segundo autoridades ucranianas, esta retomada das ações militares marca o fim da breve pausa e antecede uma nova rodada de negociações trilaterais.
As consequências dos bombardeios foram agravadas pelas condições climáticas extremas que o país enfrenta, com termômetros registrando marcas severas de -20°C na capital e chegando a -25°C em Kharkiv. O impacto na rede elétrica deixou milhares de cidadãos sem sistemas de aquecimento, forçando a população a buscar refúgio em estações de metrô, onde muitos foram vistos agasalhados com cobertores e sacos de dormir para suportar o frio intenso. Em Kiev, cerca de 1.200 edifícios residenciais e um jardim de infância ficaram desprovidos de aquecimento, enquanto em Odessa mais de 50 mil pessoas tiveram o fornecimento de energia interrompido. O Serviço Estatal de Emergência atuou durante a madrugada combatendo incêndios em prédios atingidos, em um cenário de destruição que também deixou feridos na capital.
Impacto nas negociações internacionais
O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, manifestou-se sobre a ofensiva, destacando o momento crítico escolhido para a operação. Em declaração oficial, o líder ucraniano afirmou que “Aproveitar os dias mais frios do inverno para aterrorizar as pessoas é mais importante para a Rússia do que recorrer à diplomacia”. O ataque acontece às vésperas da retomada das conversas diplomáticas entre Rússia, Ucrânia e Estados Unidos, programadas para ocorrerem em Abu Dhabi nesta quarta (4) e quinta-feira (5). Este encontro visa discutir caminhos para o encerramento do conflito, sendo a primeira reunião trilateral desde o início da invasão em fevereiro de 2022. A expectativa de que o cessar-fogo energético pudesse ser prorrogado durante as negociações foi frustrada pela intensidade dos novos bombardeios.
No setor energético, a situação é descrita como crítica pela DTEK, a maior empresa privada de energia da Ucrânia. O CEO da companhia relatou que a organização entrou em “modo de sobrevivência”, com usinas termelétricas danificadas e operando com capacidade reduzida ou paralisadas. Segundo a empresa, os danos ocorreram “num momento em que o aquecimento e a eletricidade são essenciais” para a sobrevivência da população. A DTEK também informou que um ataque anterior na região das minas de carvão atingiu um ônibus de trabalhadores, resultando no falecimento de pelo menos 12 pessoas. O executivo da empresa classificou o cenário atual como a “pior condição do nosso sistema energético na história moderna”, alertando para as dificuldades de reparo sob ataques constantes e clima gélido.
Consequências nas grandes cidades
Autoridades locais das cidades atingidas condenaram a estratégia russa de mirar a infraestrutura civil durante o pico do inverno. Ihor Terekhov, prefeito de Kharkiv, a segunda maior cidade do país, relatou que mais de 800 prédios altos ficaram sem aquecimento devido aos danos na rede. Terekhov foi enfático ao descrever a intenção por trás dos bombardeios: “O objetivo é óbvio: causar o máximo de danos e deixar a cidade sem aquecimento em meio a uma forte geada”. Na capital, o chefe da administração militar, Tymur Tkachenko, reforçou a gravidade da situação climática durante os alertas aéreos que duraram sete horas. “No frio congelante, os russos decidiram lançar outro ataque massivo contra Kiev”, declarou Tkachenko, enquanto equipes de resgate continuavam os trabalhos nos locais atingidos pelos destroços e explosões.



