Médicos são presos no Irã após socorrerem manifestantes em meio a protestos
Profissionais de saúde enfrentam acusações graves e violência por cumprirem juramento médico; EUA pedem libertação imediata dos detidos
Profissionais da medicina no Irã enfrentam uma onda de detenções por prestarem socorro a manifestantes feridos durante protestos contra o governo. Organizações de direitos humanos classificam as ações das autoridades como uma “campanha de vingança” estatal. O Departamento de Estado dos EUA solicitou a soltura imediata dos detidos, incluindo o cirurgião Alireza Golchini, acusado de “moharebeh”, termo legal que denota “travar guerra contra Deus” e pode resultar em pena capital. A repressão tem como alvo médicos que se recusaram a ignorar feridos e montaram centros de atendimento improvisados para tratar lesões graves.
O caso de Golchini, residente na cidade de Qazvin, ganhou destaque internacional após relatos de familiares. Seu primo, Nima Golchini, descreveu ao jornal The Guardian a abordagem das forças de segurança ocorrida em 10 de janeiro. Segundo o relato, “Ele foi preso de forma violenta, na frente da esposa e do filho, que tem apenas 11 anos. Bateram nele com tanta brutalidade durante a prisão que quebraram seu braço e suas costelas e o arrastaram para fora de casa. Minha família está apavorada”. O médico havia divulgado seu contato pessoal em redes sociais para auxiliar pacientes que necessitassem de cuidados.
Relatos de perseguição a voluntários
Golchini integra um grupo de pelo menos nove profissionais de saúde detidos na última semana. A organização Iran Human Rights (IHRNGO) reportou invasões a residências e abrigos médicos improvisados. Um advogado de direitos humanos exilado, Hossein Raeesi, declarou ao veículo britânico: “Isso parece ser uma campanha deliberada de vingança contra médicos e equipes de saúde que se recusam a abandonar os feridos”. Há registros de voluntários que tiveram propriedades destruídas e veículos danificados durante as operações policiais, sendo que dois pacientes atendidos por um socorrista voluntário faleceram posteriormente.
O chefe do Judiciário iraniano, Gholamhossein Mohseni Ejei, defendeu a rigidez das ações estatais e a ausência de leniência, afirmando que “Não devemos permanecer em silêncio diante daqueles que buscam explorar a situação e perturbar a segurança e a tranquilidade da população”. Dados da Human Rights Activists News Agency indicam que mais de 6 mil óbitos foram verificados no contexto dos conflitos, enquanto outras 17 mil ocorrências de falecimentos seguem sob investigação. Estima-se que mais de 42 mil pessoas tenham sido detidas em todo o país.
O dever médico sob pressão
A comunidade internacional observa o conflito entre as determinações do regime e a ética médica universal. Familiares dos detidos reforçam que os profissionais apenas exerciam sua função básica de preservação da vida. Nima Golchini ressaltou a natureza humanitária da atuação do primo: “Tudo o que ele fez foi cumprir seu dever de salvar vidas como médico. Ele jurou salvar vidas. Como qualquer médico poderia não honrar esse juramento?”. Ele completou expressando temor coletivo: “Estou preocupado não apenas com ele, mas também com outros profissionais de saúde que foram presos simplesmente por respeitarem o juramento que fizeram”.



