A ilha do Caribe onde a população local é proibida de entrar nas praias
Apenas 0,6% do litoral é público devido a legislação de 1956; ativistas e moradores buscam na justiça o direito de usar áreas costeiras
A Jamaica, conhecida mundialmente por suas paisagens paradisíacas, enfrenta um conflito crescente entre o desenvolvimento do turismo internacional e os direitos da população local. Embora o país tenha recebido um recorde de 4,3 milhões de visitantes em 2024, atraídos pelas águas cristalinas do Caribe, os próprios jamaicanos encontram barreiras físicas e legais para desfrutar do litoral. Dados do Movimento Ambiental pelo Direito por Nascimento às Praias da Jamaica (JaBEEM) indicam que, dos 1.022 km de costa da ilha, apenas 0,6% são públicos e de livre acesso. Essa restrição é amparada pela Lei de Controle das Praias, de 1956, uma herança do período colonial britânico que permite ao governo transferir a propriedade de áreas costeiras para a iniciativa privada e exigir licenças para o uso público.
O avanço de empreendimentos imobiliários e hoteleiros tem acelerado o fechamento de áreas historicamente utilizadas pelas comunidades. Um exemplo emblemático ocorreu na baía de Mammee, onde uma faixa de areia foi vendida em 2020 para a construção de um resort de luxo e um conjunto residencial. O local, antes frequentado por famílias e utilizado por pescadores de Steer Town para atracar seus barcos, foi cercado por uma parede de cimento. Devon Taylor, um dos fundadores do JaBEEM, questiona a rapidez desse processo de exclusão: “Como você pode usar uma praia ou um rio por centenas de anos e, em questão de dias, não ter mais acesso?”. A situação reflete uma tendência econômica onde apenas 40% da receita gerada pelo turismo permanece no país, enquanto grandes cadeias internacionais expandem suas operações.
Disputas judiciais e impacto na comunidade
Para combater a privatização contínua, o JaBEEM iniciou uma série de batalhas legais visando a revogação da legislação de 1956 e a garantia do acesso público. Atualmente, existem cinco ações na Justiça envolvendo praias em diferentes regiões da ilha, incluindo a praia de Providence e a praia Bob Marley. O advogado Marcus Goffe, representante do movimento, alerta para as consequências sociais profundas dessas restrições, que vão além do lazer. “Quando você impede aos jamaicanos o acesso ao mar, às práticas de pesca tradicionais e ao seu sustento, você mata a comunidade”, afirma Goffe, ressaltando que a perda do vínculo com o território ameaça a existência cultural desses grupos em poucas gerações. A previsão de construção de 10 mil novos quartos de hotel até 2030 intensifica a urgência dessas reivindicações.
O cenário tornou-se ainda mais complexo após a passagem do furacão Melissa em outubro de 2025, que atingiu o oeste e o sul da ilha. Enquanto o país trabalha na reconstrução e na reabertura completa do setor turístico, a disparidade no acesso às áreas recuperadas permanece evidente. Em muitas localidades do litoral norte e oeste, moradores só conseguem acessar o mar mediante pagamento em estabelecimentos privados, enquanto praias públicas gratuitas tornaram-se escassas. Em regiões turísticas centrais como Ocho Rios e a baía de Montego, a vida local e as atividades tradicionais de pesca foram progressivamente afastadas da vista dos hóspedes dos resorts do tipo “all-inclusive”, criando bolhas isoladas que pouco interagem com a realidade social do país.
Alternativas para turismo consciente e apoio local
Diante desse quadro, ativistas e organizações locais incentivam os visitantes a adotarem práticas de turismo mais responsáveis, que beneficiem diretamente a economia e a população da Jamaica. A recomendação é priorizar hospedagens e serviços geridos por jamaicanos, evitando resorts que segregam o acesso ao litoral. Existem opções em áreas como Negril e Treasure Beach, onde hotéis de proprietários locais facilitam o acesso a praias públicas e integram os turistas à cultura regional através da gastronomia e do artesanato. Devon Taylor reforça a importância dessa escolha consciente por parte dos viajantes internacionais: “Faça sua pesquisa, gaste seus dólares do turismo com inteligência e incentive os espaços locais na Jamaica.”



