Economia & Negócios

A estratégia diplomática de Lula ao reunir-se com Ursula von der Leyen no Rio

Reunião no Palácio do Itamaraty busca reafirmar protagonismo brasileiro nas negociações do tratado comercial que será firmado no Paraguai

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, na tarde desta sexta-feira no Palácio do Itamaraty, situado no Rio de Janeiro. O encontro teve como pauta central os ajustes finais e a celebração política do acordo entre União Europeia e Mercosul, cuja assinatura oficial está programada para ocorrer neste sábado em Assunção, no Paraguai. António Costa, presidente do Conselho Europeu, também era aguardado para a reunião estratégica, mas não pôde comparecer devido a um atraso em seu voo proveniente da Alemanha, ocasionado por condições meteorológicas adversas que impediram sua chegada a tempo.

Embora a formalização do tratado ocorra em território paraguaio, o chefe do Executivo brasileiro não deve comparecer à cerimônia no país vizinho. A estratégia por trás da reunião no Rio de Janeiro visa assegurar uma imagem de liderança ao lado da representante europeia, garantindo o registro visual do sucesso diplomático antes do evento oficial. O governo brasileiro busca, dessa forma, reafirmar sua atuação decisiva no destravamento das negociações que se estenderam por 25 anos, consolidando o protagonismo do país na conclusão do complexo pacto comercial entre os dois blocos.

Protagonismo diplomático e representação em Assunção

A expectativa inicial era de que o acordo tivesse sido finalizado ainda em dezembro de 2025, mas o processo sofreu adiamento devido à solicitação de mais tempo para análise interna pela primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, somada a protestos de setores agrícolas na França. Com a presidência rotativa do bloco sul-americano agora sob responsabilidade do Paraguai, a assinatura foi agendada para a capital daquele país. O chanceler Mauro Vieira representará o governo brasileiro na solenidade, onde é esperada a presença do presidente argentino Javier Milei, enquanto Lula optou por priorizar o encontro bilateral prévio em solo brasileiro.

O cenário internacional, marcado pela agressiva política tarifária do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, influenciou diretamente a celeridade do processo nesta etapa final. Segundo análise de Luciana Ghiotto, doutora em Ciências Sociais pela Universidade de Buenos Aires, o tratado “é essencial para mostrar que existe uma terceira via sem se amarrar aos Estados Unidos ou à China”. A especialista destaca ainda que o pacto “É um tratado enquadrado na conjuntura geopolítica: é o que leva mais tempo de negociação em nível mundial e a pressa por sua conclusão tem a ver com o governo de Donald Trump e sua aplicação maciça de tarifas aduaneiras”.

Reação às tarifas americanas e autonomia europeia

Para o bloco europeu, a parceria representa uma tentativa crucial de diversificar vínculos comerciais e diplomáticos diante da feroz concorrência chinesa e do protecionismo norte-americano. Alejandro Frenkel, cientista político da Universidade de San Martín, avalia que “Para a UE é uma forma de reforçar a autonomia e um lugar como ator importante em nível internacional em um contexto no qual a Europa está se tornando cada vez mais irrelevante em termos políticos e econômicos”. Em relação ao bloco sul-americano, Frenkel acrescenta que o acordo “serve-lhe para mostrar um avanço em um contexto de crise e fragmentação interna”, oferecendo uma resposta diplomática aos desafios econômicos atuais.

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