Por que agricultores europeus invadiram Paris contra o acordo com o Mercosul
Protestos de produtores rurais na França e outros países ameaçam assinatura do tratado que prevê isenção de tarifas para produtos sul-americanos
A proposta de estabelecer uma das maiores zonas de livre comércio do planeta, unindo cerca de 700 milhões de pessoas através do tratado entre Mercosul e União Europeia, enfrenta obstáculos políticos significativos no continente europeu. Enquanto a Comissão Europeia busca finalizar o pacto negociado há 25 anos, nações como França, Polônia, Hungria, Áustria e Irlanda manifestam forte resistência. O documento prevê a eliminação gradual, ao longo de 15 anos, de tarifas sobre 77% dos itens agropecuários exportados pelo bloco sul-americano, incluindo café, grãos e frutas. Contudo, o setor produtivo europeu alega que a medida trará prejuízos aos agricultores locais devido à entrada massiva de produtos competitivos.
Um dos pontos centrais da discórdia envolve as cotas tarifárias para produtos sensíveis e a percepção de concorrência desleal. O texto estipula um limite anual de 99 mil toneladas de carne bovina que o Mercosul poderá enviar com taxas reduzidas. Produtores europeus argumentam que os custos trabalhistas e ambientais na América do Sul são inferiores, além de apontarem discrepâncias nas exigências sanitárias, que são mais rigorosas e onerosas na UE. Benjamin Melman, CIO da Edmond de Rothschild AM, destaca o cenário atual de pressão sobre o setor: “Muitos agricultores franceses já estão sofrendo com as medidas sanitárias adotadas pelas autoridades para controlar a crise da dermatose nodular no rebanho”.
Mobilização social e bloqueios nas estradas
A insatisfação transbordou para as ruas nas últimas semanas, com manifestações em diversas capitais. Em Paris, centenas de tratores ocuparam a avenida Champs-Élysées e arredores do Parlamento, marcando a rejeição francesa. O movimento se replicou na Irlanda, onde estradas em Athlone foram bloqueadas por produtores exibindo faixas com os dizeres “Pare UE-Mercosul” e bandeiras do bloco com a palavra “vendidos”. A pressão ocorre às vésperas da viagem de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, à América do Sul para tentar oficializar o documento, que ainda necessita de ratificação parlamentar para entrar em vigor.
Analistas econômicos apontam que os benefícios do acordo não serão distribuídos uniformemente. Germán Ríos, da IE University, explica que “Os vencedores estariam na indústria e nos serviços, enquanto os custos do ajuste recairiam sobre setores da agricultura, especialmente carne bovina, aves, açúcar e etanol, nos quais as importações de concorrentes do Mercosul poderiam ser significativas”. Essa disparidade cria uma divisão interna na UE, opondo a França à Alemanha. Max Maton, da Oxford Economics, observa: “O impacto desigual do acordo divide os Estados membros. Uma coalizão de apoio é liderada pela Alemanha, que vê no Mercosul um mercado de exportação lucrativo, especialmente para seu setor automotivo, que atravessa uma crise”.
Riscos fiscais e divergências internas
Além das perdas setoriais, existem preocupações macroeconômicas sobre como os governos lidarão com os prejuízos no campo. O professor Ríos alerta para o perigo fiscal: “Se os subsídios de compensação e ajuste forem elevados, podem ampliar o déficit e a dívida pública, o que pode exigir cortes de gastos em outras áreas ou impostos mais altos ao longo do tempo”. Essa complexidade reforça a polarização entre as potências europeias. François Rimeu, estrategista da Crédit Mutuel AM, resume a dicotomia ao afirmar que, “embora o acordo seja muito positivo para certas indústrias europeias, como o setor automotivo, terá efeito mais negativo em outras, como a agricultura”.



