Opinião

COPA DO MUNDO E REFLEXÕES EM CAMPO

Copa não é só um jogo

Gustavo Uchôas Guimarães Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso. 

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Para muita gente, a Copa do Mundo vale pelo entretenimento e pela oportunidade de se ocupar com algo alegre e que traga alento em tempos difíceis de muitas notícias ruins. Essa visão é válida e não podemos nos arrogar o direito e a petulância de enxergar as alegrias populares com olhos pedantes. No entanto, por opção própria, gosto de ir além e colocar algumas reflexões em campo, abrindo o jogo para possibilidades de pensamento, defendendo minhas convicções e atacando discursos, mentalidades e práticas alienadoras.

Vários acontecimentos anteriores à Copa do Mundo expuseram a mediocridade da organização do evento. Por exemplo, a completa ausência de punições – ou, no mínimo, advertências – a um dos países-sede (Estados Unidos) por seus comportamentos bélicos reprováveis (a invasão da Venezuela, os bombardeios contra o Irã e o apoio aos ataques a Gaza; nos casos de Irã e Gaza, destaque-se as centenas de mortes de civis inocentes). Essa omissão da FIFA em relação aos Estados Unidos é bastante incômoda se considerarmos que a mesma entidade foi enérgica com a Rússia e a suspendeu de eventos futebolísticos em razão da invasão da Ucrânia. Além desse fato, também lembremos dos Estados Unidos tratando como criminosos os jogadores do Irã, um dos jogadores do Iraque, um árbitro da Somália, entre outros. São acontecimentos que causariam grande decepção a Jules Rimet, um católico devoto que idealizou a Copa do Mundo tendo algumas inspirações, entre elas o ideal de fraternidade defendido pelo papa Leão XIII no documento Rerum Novarum (Sobre as Coisas Novas; 1891) e o ideal de união entre os povos que moveu o Barão de Coubertin em sua campanha pela criação dos Jogos Olímpicos modernos.

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Com a bola rolando nos estádios estadunidenses, mexicanos e canadenses, não deixo de pensar na alegria proporcionada às populações de países devastados por crises políticas, guerras e sérios problemas socioeconômicos, ou de países sem tradição no futebol e que conseguiram classificar suas seleções nacionais. Nesse sentido, a bola no gol, a raça no jogo e a vontade de alegrar os compatriotas são uma renovação de esperanças proporcionada, por exemplo, pelos jogadores da ilha de Curaçao, do Cabo Verde, da República Democrática do Congo, do Iraque, do Irã, entre outros. O gol de Curaçao teve mais comemoração que os sete gols alemães no mesmo jogo; as defesas do goleiro de Cabo Verde, segurando os ataques espanhóis, e o gol do Congo, arrancando um empate frente à Seleção Portuguesa, foram de uma magnitude inexplicável, pois carregam em si não apenas o valor esportivo, mas um orgulho nacional e coletivo que só os curaçauenses, cabo-verdianos e congoleses compreendem e expressam. Inclusive, é prática de jogadores congoleses comemorar com gestos que chamam a atenção do mundo às atrocidades da guerra civil no Congo e do drama dos refugiados (situações que o mundo finge que não está acontecendo e não é de hoje). Ou ainda, o esforço iraniano (obrigado a se instalar no norte do México, mesmo tendo seus jogos nos Estados Unidos) e os gols marcados no empate com a Nova Zelândia carregam em si uma lembrança das recentes agressões sofridas (por exemplo, torcedores iranianos nas arquibancadas lembraram, através de faixas, das mais de 100 meninas mortas por um ataque israelense apoiado pelos Estados Unidos).

Sendo eu professor e historiador, também me interessa bastante, em época de Copa do Mundo, as histórias e culturas dos países participantes do evento e as possibilidades de uso pedagógico da Copa do Mundo. Sobre as histórias e culturas dos participantes da Copa, incluindo diversas abordagens geopolíticas, vale a pena conhecer a página “Copa além da Copa” no Instagram (@copaalemdacopa). O uso pedagógico se dá por meio de inúmeras ideias de projetos e atividades realizados dentro dos ambientes escolares. Essa prática de aliar a Copa do Mundo aos conteúdos escolares proporciona bons momentos de ensino e aprendizagem por diversos pontos de vista, desde as produções nas aulas de Arte e utilização de dados das seleções nas aulas de Matemática até as discussões sobre diversos aspectos éticos, políticos e críticos nas aulas de Filosofia.

Ainda haveria muitos outros pontos de vista a tratar (gastos exorbitantes com estádios, cobrança de preços altíssimos pelos ingressos, arrogância da UEFA – que comanda o futebol na Europa – em relação ao aumento no número de seleções classificadas, etc). Tudo isso faz em minha mente um imenso e intenso “enxame” de pensamentos, reflexões, links, abordagens e contextualizações. Sem deixar isso de lado, aproveito a Copa do Mundo, torço pela Seleção Brasileira (e por seleções de países com os quais simpatizo bastante, principalmente o Paraguai e os demais latino-americanos) e me emociono com os momentos e personagens alçados à História das Copas.

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