Opinião

SOBRE O COLÉGIO TIRADENTES EM VARGINHA

Opinião de um professor que sabe do assunto

Gustavo Uchôas Guimarães Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso. 

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No fim de maio, o governador Mateus Simões esteve em Varginha e, entre outras ações, anunciou a abertura de uma unidade do Colégio Tiradentes (administrado pela Polícia Militar de Minas Gerais) em Varginha, no local onde hoje é a Escola Estadual São Sebastião, no bairro Padre Vítor. A respeito dessa unidade do Colégio Tiradentes, ficou apenas no anúncio (aliás, muito vago), mas foi suficiente para que as redes sociais virassem um campo de batalha entre defensores e opositores da ideia, alguns inteligentes (de ambos os lados) e muitos intolerantes (de ambos os lados).

Não sou contrário à instalação do Colégio Tiradentes em Varginha. Em 2014, prestei concurso para as vagas de professor de História no Colégio Tiradentes de Lavras; mesmo eu tendo ficado em quinto lugar (eram 4 vagas), fui chamado, mas resolvi não assumir a vaga, pois o salário não era interessante para alguém que teria de se mudar para Lavras e morar de aluguel. E, naquele momento, já havia em mim dúvidas se a Polícia Militar respeita, no Colégio Tiradentes, a “liberdade de cátedra” garantida por leis (artigo 206 da Constituição Federal e artigo 3 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional).

A crítica que faço ao anúncio de um Colégio Tiradentes em Varginha diz respeito ao contexto em que foi feito e ao que não foi dito até agora. O governador está em andanças pelo estado de Minas Gerais porque é ano eleitoral e ele, pré-candidato a governador, quer se tornar mais conhecido (Mateus Simões só se tornou governador porque era vice de Romeu Zema e este se afastou para ser pré-candidato a presidente; no mais, Simões é um “ilustre desconhecido”). Nessas andanças pelo estado, obviamente o governador faz anúncios eleitoreiros focando em determinados nichos da sociedade. Ao anunciar, por exemplo, unidades do Colégio Tiradentes, o governador quer conquistar votos de uma parte da sociedade que se identifica com o militarismo (principalmente, bolsonaristas) e fazer com que esses votos não sejam dados a um possível candidato apoiado por Flávio Bolsonaro.

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Além disso, o que não foi dito até agora é: Por que instalar o Colégio Tiradentes no prédio onde já funciona uma escola estadual? Não há prédios ou terrenos em Varginha que possam servir ao propósito de instalação do Colégio Tiradentes? Se instalado no prédio de uma escola estadual, para onde vão os alunos desta escola (para o Colégio Tiradentes é que não vão, pois as vagas são limitadas e existe seleção de alunos)? O que o estado de Minas fará com os alunos, os professores e os funcionários da Escola Estadual São Sebastião? E pergunto mais: Por que a instalação de um Colégio Tiradentes será feita em uma área periférica? Se o Colégio é tão bom (e não duvido da qualidade, pois isso se deve à seleção de alunos), por que não instalá-lo mais ao centro da cidade, para ser usufruído também pelos filhos da elite varginhense? E pergunto novamente: Por que a instalação de um Colégio Tiradentes no mesmo local em que já funciona uma escola estadual? Se o governo de Minas realmente priorizasse a educação pública de qualidade, não seria mais lógico e louvável investir em melhorias na Escola Estadual São Sebastião para sanar problemas pedagógicos e sociais? Aliás, esse último questionamento não deve ser feito somente em relação à Escola Estadual São Sebastião, mas às escolas estaduais em geral, cujas necessárias melhorias (pedagógicas, estruturais, sociais, etc) dependem da boa vontade de um governo que quer mais números do que qualidade (como se pode ver na recente compra de materiais de questionável qualidade e que custou o cargo do secretário Rossieli Soares, em um esforço do governo para “tirar o corpo fora”).

Todas essas questões devem ser pensadas e discutidas (de forma civilizada, o que pouco se vê nas redes sociais) para que não se tornem mais promessas vazias. Aliás, a dupla Zema – Simões é especialista nisso (a Polícia Militar sabe bem o que são as promessas não cumpridas nos últimos 8 anos; pergunte a um policial militar, por exemplo, sobre as promessas de reajuste salarial). Sabendo desse histórico e conhecendo a disposição que políticos têm para fazer promessas em ano eleitoral, é muito provável que o Colégio Tiradentes em Varginha não passe de um anúncio (ainda mais se Mateus Simões não vencer a eleição). Aliás, um anúncio bem conveniente, eleitoreiro, voltado a uma fatia de conservadores e reacionários da sociedade sul-mineira. Enfim, apenas um anúncio!

 

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