
Poesia de Edward Lustosa Boggiss é ator, diretor, produtor, autor e educador social, assistente social, tendo passagens pelo teatro e grandes emissoras de TV, como a Rede Globo e a Record.
como pensamento que fora de hora flui.
Aplicar-se em silêncio, quando nada se diz,
é deixar que o sentir vá além do que fiz.
É no gesto comum, no instante disperso,
que o pensar se revela mais vivo que o verso.
Não apenas no auge daquilo que se quer,
mas no vão entre um ser e o que ainda vier.
Talvez seja prática de estar sem buscar,
de deixar que a ideia aprenda a habitar.
Entre o antes e o depois, no quase, no meio,
o pensamento floresce sem pedir por anseio.
E então já não importa o momento exato,
se é dito ou calado, distante ou imediato —
pois pensar, no profundo, não pede ocasião,
ele é fluxo contínuo em qualquer direção.
Ser dúvida, então, deixa de ser incerteza,
e passa a ser caminho, matéria e leveza.
Ser é dúvida viva, que nunca se encerra,
é raiz que se expande por dentro da terra.
E o plural do talvez já não busca resposta,
é o próprio existir, em sua forma exposta.
E nesse existir que não pede contorno,
o sentido se perde — e se acha no entorno.
Talvez seja o eco de algo maior,
um sussurro do dentro pedindo o melhor.
Mas o melhor não é fim, nem medida exata,
é caminho que erra, refaz e se trata.
Pensar fora do tempo é romper direção,
é viver sem amarras na própria intenção.
É quando o instante não cobra sentido,
e apenas ser que se percebe no não definido.
Talvez seja treino de olhar sem julgar,
de permitir ao vazio também ensinar.
Pois no vácuo das certezas que um dia existiram,
novos modos de ser silenciosos surgiram.
E assim o pensamento, já livre de forma,
não se prende ao momento, tampouco à norma.
Ele é quase invisível, mas sempre presente,
como um fio sutil que conduz o consciente.
Ser plural no talvez é não se conter,
é caber em si mesmo e ainda transcender.
E no fim — se é que há fim nesse constante mover —
resta apenas o fluxo… e a coragem de ser.



