Internações por lesões autoprovocadas entre jovens sobem 44% em uma década no Brasil
Pesquisa da UFBA e UFSB aponta que fatores como bullying e tensão emocional impulsionam a crise na saúde mental de jovens
Um estudo dos Cadernos de Saúde Pública revelou um aumento de 44,3% nas internações por lesões autoprovocadas entre jovens no Brasil. A pesquisa da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB) analisou dados do Sistema Único de Saúde (SUS) de 2013 a 2023. O país somou 18.382 hospitalizações e 261 falecimentos. A faixa de 15 a 19 anos, residente nas regiões Sul e Sudeste, concentra a maior parte dos registros documentados.
O avanço dos índices reflete os desafios da juventude, que acabam sendo agravados por fatores externos. Desigualdade socioeconômica, racismo, conflitos familiares e o excesso de redes sociais afetam diretamente essa população. A médica Gabriela Garcia de Carvalho Laguna, pesquisadora da UFSB, explica o cenário. “Comportamentos autolesivos podem ser compreendidos como uma forma de lidar com um sofrimento emocional intenso, complexo e que não pode ser explicado por uma única causa”, afirma.
Impacto do bullying nas lesões autoprovocadas segundo o hospital Albert Einstein
O ambiente escolar exerce forte influência no volume de hospitalizações. O psiquiatra Elton Yoji Kanomata, do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, alerta sobre as agressões. “O bullying é muito mais do que ‘zoar’ e ser ‘zoado’. Existe uma violência, não apenas física, mas também psicológica, muito intensa. Há um estado de submissão ao agressor, em que a vítima se sente quase como refém”, pontua. A única queda de registros ocorreu em 2020 por subnotificação na pandemia.
Identificar os riscos exige atenção contínua à rotina dos adolescentes. Isolamento, episódios de tensão emocional e queda no rendimento escolar indicam a necessidade de suporte. O levantamento mostra que as meninas lideram as internações por tentativas de tirar a própria vida, enquanto os meninos registram mais falecimentos. Essa diferença estatística evidencia variações na gravidade das ocorrências e reforça a urgência de ações preventivas direcionadas a cada perfil.
Prevenção da saúde mental de jovens e o papel das políticas públicas
O enfrentamento da situação demanda apoio conjunto de familiares, escolas e profissionais. Ao notar mudanças de comportamento, recomenda-se o diálogo com a escola, evoluindo para o acompanhamento com psicólogos em casos severos. Ampliar o suporte médico é uma etapa essencial. “O direcionamento de políticas públicas para estratégias de prevenção na atenção primária pode contribuir para reduzir as internações hospitalares por autolesão, além de melhorar a qualidade de vida e a saúde mental dos jovens”, conclui Laguna.



