Ultraprocessados são associados à ideia de infância feliz em comunidades vulneráveis, aponta Unicef
Pesquisa revela que 52% dos entrevistados consideram iogurtes com sabor saudáveis e aponta falhas na interpretação de rótulos nutricionais obrigatórios.
Um levantamento realizado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em parceria com a farmacêutica Novo Nordisk, revelou que os alimentos ultraprocessados ainda são fortemente vinculados ao conceito de “infância feliz” no Brasil. O estudo, que ouviu 694 pessoas em comunidades vulneráveis no Rio de Janeiro, Recife e Belém, indica que esses produtos representam uma espécie de conquista social nessas regiões. De acordo com a pesquisa, existe uma percepção equivocada de que itens industrializados são benéficos, com 52% dos participantes classificando iogurtes com sabor como saudáveis e 49% atribuindo o mesmo valor a nuggets preparados na fritadeira elétrica.
A análise destaca que a publicidade e o design das embalagens desempenham um papel central na confusão dos consumidores. Muitas famílias ignoram a natureza ultraprocessada de determinados produtos devido ao uso de personagens infantis e frases que ressaltam a presença de vitaminas e minerais. Stephanie Amaral, oficial de saúde e nutrição do Unicef no Brasil, esclarece que “o consumo de ultraprocessados não é culpa da família ou uma falta de cuidado, mas uma combinação de fatores: correria na rotina, custo e falta de domínio técnico, no caso da leitura do rótulo”. A praticidade e a aceitação garantida pelas crianças tornam esses itens uma escolha frequente para evitar riscos financeiros com alimentos perecíveis.
Dificuldades na interpretação da rotulagem nutricional
A pesquisa identificou que 55% dos entrevistados não possuem o hábito de verificar os rótulos antes da compra, enquanto 26% afirmaram não compreender as informações contidas nas embalagens. Um dado que gera preocupação é a interpretação da “lupa” de advertência, implementada para sinalizar o excesso de sódio, açúcar ou gordura. Cerca de 15% dos participantes acreditam que o símbolo indica uma qualidade superior ou que o alimento é saudável. A nutricionista Thais Fernanda Pereira, do Hospital Samaritano Higienópolis, reforça que “o marketing direcionado ao público infantil é muito forte, o que acaba incentivando o consumo precoce de alimentos ultraprocessados, algo que não deveria ocorrer”.
Os momentos de maior exposição a esses produtos ocorrem durante os lanches intermediários, especialmente no ambiente escolar. Os dados mostram que metade das crianças consumiu ultraprocessados nesse período no dia anterior à entrevista, enquanto no almoço e jantar o índice é de 13%. Diante desse cenário, o Unicef recomenda a criação de legislações que limitem a venda e a publicidade desses itens nas escolas, além da inclusão da educação alimentar no currículo oficial. A sobrecarga materna também é um fator determinante, já que em 80% dos casos a mãe é a única responsável pela alimentação, recorrendo aos industrializados pela falta de tempo para o preparo de refeições frescas.
Estratégias para identificação e substituição de produtos
Para auxiliar as famílias, especialistas sugerem que a qualidade do produto pode ser aferida pela quantidade de ingredientes descritos no rótulo; quanto menor a lista, melhor a procedência. Alimentos com prazos de validade muito extensos geralmente indicam a presença de aditivos químicos e processos industriais agressivos. Como alternativa viável para a rotina, a recomendação é priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, como grãos, frutas e legumes. A preparação antecipada de marmitas caseiras e o envolvimento das crianças no processo de cozinha são apontados como métodos eficazes para aumentar a aceitação de novos sabores e reduzir a dependência de itens ultraprocessados no cotidiano familiar.



