Homens concentram a maioria das mortes por câncer de esôfago no Brasil, aponta levantamento
Levantamento da Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica revela que tabagismo e consumo de álcool impulsionam óbitos pela doença no país.
A campanha Abril Azul Claro reforça a necessidade de conscientização sobre o câncer de esôfago, uma enfermidade que apresenta altos índices de diagnóstico tardio no Brasil. Dados coletados em março de 2026 pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Oncológica (SBCO), junto ao Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, revelam uma disparidade de gênero acentuada. Em 2024, o país registrou 8.677 óbitos pela doença, sendo que 6.830 ocorreram entre homens e 1.847 entre mulheres. Essa proporção indica que o público masculino falece quase quatro vezes mais em decorrência deste tumor do que o feminino, cenário atrelado à maior exposição prolongada a substâncias nocivas.
O aumento na mortalidade tem sido observado de forma gradual nos últimos anos, saindo de 8,3 mil registros em 2020 para o patamar atual superior a 8,6 mil. Segundo o cirurgião oncológico Paulo Henrique Fernandes, presidente da SBCO, esse fenômeno está ligado a múltiplos fatores estruturais e comportamentais. “A crescente tem sido observada em diversos tumores, em parte pelo envelhecimento da população e pela maior exposição a fatores de risco, inclusive o afrouxamento de campanhas antitabagismo no país”, afirma Fernandes. O especialista destaca que o volume de novos casos anuais, estimado em 11,3 mil, exerce pressão constante sobre o sistema público de saúde.
Fatores de risco e disparidades regionais no diagnóstico
A distribuição geográfica dos óbitos revela que a região Sudeste concentra o maior volume absoluto, com 3.877 registros em 2024. No entanto, o Nordeste apresentou um crescimento contínuo, saltando de 1.808 falecimentos em 2020 para 2.051 no último ano analisado. O Norte também registrou elevação, enquanto o Sul e o Centro-Oeste mantiveram índices mais estáveis. Para Fernandes, essas variações podem indicar gargalos no atendimento médico especializado. “É importante considerar a possibilidade de subnotificação e dificuldades no acesso ao diagnóstico, especialmente em regiões com menor estrutura, o que pode mascarar a real dimensão da doença”, diz o médico.
A ausência de um programa de rastreamento preventivo estruturado, como ocorre em outros tipos de câncer, faz com que a identificação da patologia aconteça frequentemente em estágios avançados. Os principais gatilhos para o desenvolvimento da enfermidade incluem o tabagismo, o consumo de bebidas alcoólicas, a obesidade e a ingestão recorrente de líquidos em temperaturas muito elevadas. Além disso, uma dieta pobre em nutrientes e rica em alimentos ultraprocessados contribui para a irritação crônica da mucosa esofágica. Condições clínicas prévias, como o refluxo gastroesofágico e o esôfago de Barrett, também são apontadas como fatores que elevam a vulnerabilidade do paciente.
Sinais de alerta e importância da detecção precoce
Especialistas orientam que a população fique atenta a sinais que podem ser confundidos com problemas digestivos comuns, mas que persistem ao longo do tempo. “Como não há um método de rastreio como os exames de prevenção, a doença pode ser silenciosa e, quando surgem os primeiros sintomas, isso geralmente indica um quadro mais avançado”, afirma Fernandes. Dificuldade para deglutir, perda de peso sem explicação aparente, rouquidão contínua e desconforto torácico são sintomas que exigem investigação médica imediata. A prevenção primária, focada na redução do uso de entorpecentes lícitos e na melhoria dos hábitos alimentares, permanece como a estratégia mais eficaz para reverter o quadro de mortalidade.



