Lula detona plano dos EUA para Gaza e diz que querem construir resort no local
Durante conferência no Itamaraty, mandatário afirmou que líderes globais priorizam conflitos armados ao combate à fome e citou destruição na Palestina
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva manifestou duras críticas, nesta quarta-feira (4), ao Conselho de Paz estabelecido pelos Estados Unidos. Durante uma conferência da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), realizada no Palácio Itamaraty, o chefe do Executivo brasileiro questionou as intenções por trás dos planos de reestruturação da Faixa de Gaza. Segundo o mandatário, as propostas internacionais parecem visar a transformação do território, atualmente devastado por bombardeios, em um destino de lazer, ignorando a gravidade da crise humanitária instalada na região.
Em seu discurso, Lula abordou a contradição entre a destruição massiva de infraestrutura e as promessas subsequentes de obras na área. Ele indagou aos presentes sobre a lógica do conflito: “Compensou destruir Gaza, matando a quantidade de mulheres que mataram crianças, para agora aparecerem com pompa, criando um conselho para dizer, ‘vamos reconstruir Gaza’?”. O presidente prosseguiu com uma comparação sobre o futuro uso do local. “Aí, aparece como se fosse, sabe, um resort para passar a férias no lugar em que estão os cadáveres das mulheres e das crianças que morreram”, afirmou, referindo-se a especulações sobre o uso do território pela iniciativa privada.
Impasse diplomático sobre o conselho
A iniciativa mencionada pelo presidente foi lançada por Donald Trump em Davos, na Suíça, com o objetivo declarado de deixar Gaza “desmilitarizada, propriamente governada e lindamente reconstruída”. Embora o Brasil tenha sido convidado a integrar o grupo, o governo sinaliza uma recusa. O Itamaraty avalia que a proposta concentra “um poder excessivo” no líder norte-americano e concorre com a Organização das Nações Unidas. O distanciamento aumentou após ataques recentes ao Irã, vistos por diplomatas brasileiros como prova de que o conselho seria uma proposta “para inglês ver” e não uma “iniciativa real pela paz”.
Além das questões bilaterais, Lula direcionou críticas à atuação do Conselho de Segurança da ONU diante dos conflitos atuais. Ele argumentou que a organização cede a interesses bélicos em detrimento da diplomacia. “A ONU está cedendo ao fatalismo dos senhores das guerras e não tem espaço para os senhores da paz. Por que a ONU já não convocou uma conferência mundial para discutir esses conflitos?”, questionou. O presidente brasileiro tem defendido consistentemente a reforma do órgão e o aumento do número de assentos permanentes para equilibrar as decisões geopolíticas.
Foco no combate à fome global
Ao encerrar sua participação no evento, que tinha como foco a alimentação, Lula contrastou os altos gastos militares com a escassez de recursos para nutrir a população mundial. Ele lamentou que “As pessoas importantes do planeta que deveriam estar preocupadas com a fome estão preocupadas com guerra”. Para o presidente, o acesso ao alimento deve ser tratado como “prioridade zero” e um “direito sagrado”. Ele finalizou enfatizando o desvio de prioridades: “Todo mundo quer mais bomba atômica, todo mundo quer mais drone, todo mundo quer aviões de caça cada vez mais caro. E tudo isso não é feito para construir ou para produzir alimento.”



