Herançocracia: sucesso financeiro de jovens depende mais dos pais do que do trabalho
Livro analisa como a fortuna dos baby boomers moldou a economia e tornou o "banco da mamãe e do papai" essencial para millennials e geração Z
A historiadora britânica Eliza Filby introduz um conceito fundamental para a compreensão das dinâmicas econômicas contemporâneas em seu livro *Inheritocracy*. A obra argumenta que o sucesso financeiro das gerações atuais, especificamente aquelas com menos de 45 anos, está intrinsecamente ligado ao patrimônio acumulado por seus antecessores, e não apenas ao esforço individual ou salário. Ao dialogar com empregadores, Filby costuma provocar uma reflexão sobre a lealdade corporativa versus a dependência familiar: “Você percebe que, agora, seus empregados com menos de 45 anos têm mais possibilidade de comprar uma casa sendo leais aos seus pais e não ao seu chefe?”. Essa premissa define o que a autora chama de “herançocracia”, um sistema onde a rede de segurança financeira provida pela família determina as oportunidades na vida adulta.
O conceito de herançocracia surge como um contraponto direto à meritocracia, a crença de que o trabalho árduo resulta necessariamente em ascensão social. Filby ressalta que “A herançocracia é uma sociedade na qual o importante não é o quanto você ganha, nem o que você aprendeu”, mas sim o acesso aos recursos familiares. A autora relembra que o termo meritocracia foi cunhado em 1958 pelo sociólogo Michael Young como uma sátira, alertando para uma sociedade onde o sucesso seria justificado moralmente pelo talento, culpabilizando o indivíduo pelo fracasso. Com o tempo, a ironia original se perdeu e o termo passou a ser utilizado como um ideal a ser alcançado, gerando frustrações em um cenário onde o esforço isolado já não garante recompensas materiais significativas.
Contexto do pós-guerra e ensino
A popularização da ideia de mérito ocorreu porque ela funcionou para a geração dos *baby boomers*, impulsionada pelo crescimento econômico do pós-guerra e pela expansão do acesso ao ensino superior. Governos buscaram democratizar oportunidades através da universidade, consolidando a narrativa de que o diploma garantiria estabilidade. No entanto, o sistema não conseguiu sustentar essa promessa para todos, resultando na desvalorização dos títulos universitários frente ao aumento de seus custos. Segundo a historiadora, “o problema é que construímos um sistema em que 50% das pessoas não tinham uma forma alternativa clara rumo a uma vida segura”. Jovens de famílias modestas, muitas vezes endividados para estudar, foram os mais impactados por essa rigidez estrutural que limitou as definições de sucesso.
Além das questões econômicas, a autora critica a estagnação do modelo corporativo e educacional, que permanece atrelado a conceitos do século 19. A formação profissional, que antes ocorria dentro do ambiente de trabalho, foi transferida quase integralmente para as instituições de ensino e para os próprios indivíduos. Filby observa que essa mudança de responsabilidade sobrecarregou os trabalhadores: “Durante décadas, as empresas terceirizaram a formação universitária. Antes, se aprendia no trabalho. Hoje, as empresas esperam empregados ‘prontos’ e investem muito pouco no seu treinamento.” Essa falta de investimento corporativo, somada à ameaça da inteligência artificial sobre funções de escritório, torna o cenário ainda mais incerto para quem depende exclusivamente da própria renda.
Suporte financeiro familiar
Diante da retração do Estado e das disfunções do mercado, o patrimônio familiar assumiu o papel de garantidor da estabilidade, fenômeno apelidado de “banco da mamãe e do papai”. Essa transferência de recursos, que auxilia no pagamento de aluguéis, hipotecas e estudos, não deve ser vista como um ato de avareza ou falta de responsabilidade dos mais jovens, mas como uma adaptação necessária às condições atuais. Filby conclui que “A família está intervindo porque o Estado se retirou e o mercado ficou disfuncional em áreas fundamentais”. O impacto dessa dinâmica é profundo sobre a geração X e os *millennials*, e tende a se expandir para as gerações Z e alfa, redefinindo as bases da mobilidade social no século 21.



