Arquivos de Epstein indicam rede de agenciamento e concursos de modelos no Brasil
Depoimentos citam "agente mãe" e planos para comprar revista de moda visando facilitar acesso a jovens no país
Os novos documentos divulgados pela justiça norte-americana referentes ao financista Jeffrey Epstein trazem aproximadamente 4 mil menções ao Brasil, indicando interesses específicos do empresário no país. Os arquivos, que incluem trocas de e-mails e depoimentos judiciais, apontam para a existência de uma suposta rede de contatos locais voltada ao recrutamento de mulheres. As informações sugerem que Epstein e seus associados planejavam utilizar concursos de beleza e a aquisição de veículos de mídia como estratégias para atrair jovens brasileiras para os Estados Unidos, visando contornar agências tradicionais.
Um dos depoimentos, datado de junho de 2010, cita a atuação de uma mulher descrita como “agente mãe” em território brasileiro. Segundo o relato de uma ex-funcionária de Jean-Luc Brunel, colaborador próximo de Epstein que faleceu na prisão em 2022, essa intermediária facilitava o acesso a garotas. O testemunho detalha que quatro brasileiras teriam sido levadas por Brunel para uma festa na residência de Epstein, sendo que ao menos duas delas teriam entre 13 e 15 anos na época. O documento alega que o financista custeava os vistos de entrada nos Estados Unidos para viabilizar o transporte das jovens.
Estratégias financeiras e sigilo
A testemunha ouvida pelas autoridades da Flórida sugeriu que o poder econômico era utilizado para garantir o sigilo das operações no Brasil. Em um trecho específico, a depoente afirma que “Cinco mil dólares no Brasil é muito dinheiro. Dá pra comprar uma casa”, indicando a facilidade em comprar o silêncio de envolvidos. O relato prossegue afirmando que “Jeffrey Epstein tem todo o dinheiro que tem, ele podia calar todo mundo”. Além disso, a ex-funcionária alegou que a agência de modelos mantida por Brunel não gerava lucro real e servia principalmente aos interesses pessoais do financista.
As comunicações eletrônicas de 2016 revelam discussões sobre a criação de um concurso de modelos para captar novas jovens. Um interlocutor sugere a Epstein que tal evento permitiria acesso a garotas do interior e menos experientes no mercado da moda. A mensagem detalha que a operação “envolveria pagar ao organizador e, então, ele encontraria patrocinadores e eles vasculhariam o país em busca de modelos em potencial”. O objetivo explícito nessas conversas era ter acesso direto às participantes, com a sugestão de que o empresário poderia “levar essas garotas para qualquer lugar nos EUA”.
Negociações no setor editorial
Outra estratégia debatida nos e-mails envolvia a aquisição de um veículo de imprensa especializado para legitimar a aproximação com as mulheres. Um parceiro de Epstein informou que “Uma revista de moda brasileira está à venda” e questionou o interesse na compra conjunta. A proposta delineada nas mensagens era utilizar a publicação para realizar seleções de modelos diretamente em Nova York, o que garantiria um fluxo constante de candidatas. O plano estimava que o empresário poderia ter “de 20 a 30 garotas tentando a capa todos os meses”, consolidando uma rota de trânsito de mulheres entre o Brasil e as propriedades de Epstein.



