Chanceler refuta relatório dos EUA sobre presença militar da China no Brasil
Ministro das Relações Exteriores esclarece na Câmara que projetos citados não saíram do papel e classifica documento americano como desinformação
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, compareceu à Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara dos Deputados nesta quarta-feira para refutar alegações sobre a existência de instalações militares da China em solo brasileiro. Durante a audiência, o chanceler classificou as informações contidas em um documento elaborado por uma comissão do Congresso dos Estados Unidos como imprecisas e afirmou que o texto constrói uma “narrativa falaciosa” baseada em dados distorcidos sobre a cooperação espacial do país. Vieira defendeu a transparência das parcerias internacionais do Brasil e negou qualquer atividade bélica estrangeira não autorizada.
A controvérsia teve início após o relatório norte-americano mencionar uma suposta estação terrestre em Salvador, denominada Tucano Ground Station, que estaria vinculada a memorandos entre a startup brasileira Alia Space e companhias chinesas. Vieira foi enfático ao desmentir a concretização do projeto, garantindo que o debate precisa retornar ao campo da realidade. Segundo o ministro, “a estação Tucano não existe. Não há construção, não há contrato, não há infraestrutura, não há operação”. Ele reforçou aos parlamentares que “as ilações apresentadas no referido relatório não passam de desinformação”.
Projetos espaciais e memorandos internacionais
Ao detalhar a situação, o chanceler explicou que a empresa brasileira havia planejado a instalação de seis bases em diferentes localidades, incluindo Bahia, Maranhão e São Paulo, mas “nenhuma das seis saiu do papel, jamais saiu do papel”. O acordo preliminar citado com a empresa chinesa Beijing Tianlian Space Technology perdeu a validade em 2024 sem gerar contratos definitivos. Vieira destacou ainda que documentos semelhantes foram firmados com entidades de nações como França, Índia e os próprios Estados Unidos. Para o ministro, “estamos falando, portanto, de especulações derivadas de notícias de internet cujos conteúdos foram descontextualizados e distorcidos”.
Outro ponto abordado durante os esclarecimentos foi o radiotelescópio BINGO, situado na Paraíba, que conta com colaboração internacional de diversos países, incluindo instituições chinesas, britânicas e suíças. O ministro rejeitou qualquer possibilidade de uso dual do equipamento para fins bélicos, assegurando que o foco é estritamente a pesquisa sobre energia escura e radiação. De acordo com Vieira, “não há absolutamente nenhum elemento operacional, tecnológico ou material que permita associar o telescópio Bingo a atividades de inteligência, espionagem, vigilância ou qualquer objetivo militar”.
Foco científico e viés geopolítico
O chefe da diplomacia brasileira reiterou que a startup mencionada ainda se encontra em estágio inicial, operando em um escritório comercial e dependendo de financiamento para avançar. Ao encerrar sua argumentação sobre o caráter pacífico das iniciativas, Vieira criticou a postura do documento norte-americano em relação à cooperação técnica do Brasil. Ele afirmou que o equipamento na Paraíba é fixo e voltado ao espaço profundo: “Trata-se, repito, de ciência”. Para o governo brasileiro, o relatório avaliza um viés geopolítico ultrapassado ao tratar parcerias científicas com suspeição e desconhecimento técnico.



