Grupos progressistas nos EUA recorrem a treinamento armado contra o ICE
Operações federais em cidades democratas motivam mulheres e grupos LGBTQIA+ a buscarem defesa pessoal e licenças de porte de armamento.
Uma mudança significativa de comportamento tem sido observada entre grupos historicamente identificados como progressistas nos Estados Unidos ao longo de 2026. A tradicional oposição ao armamento civil, pauta comum entre eleitores democratas, começou a ceder espaço para uma interpretação pragmática da Segunda Emenda da Constituição, que assegura o direito ao porte de armas. Essa alteração de postura ocorre em resposta direta às recentes movimentações do governo federal, que intensificou o envio de agentes do Serviço de Imigração e Alfândega, conhecido pela sigla ICE, para realizar operações de captura de imigrantes, com foco prioritário em cidades administradas pelo Partido Democrata.
O epicentro dessa transformação pode ser notado em Minneapolis, onde a procura por instruções de tiro e aquisição de licenças aumentou consideravelmente após o deslocamento de cerca de três mil agentes federais para a região. O clima de tensão foi agravado pelos falecimentos de dois cidadãos norte-americanos, Renee Good e Alex Pretti, em circunstâncias que envolveram operações oficiais. Steven Rogers, proprietário de uma empresa de segurança local, relatou à rede NBC que o medo impulsiona esse mercado. Segundo ele: “A maioria das pessoas tem medo do ICE. Há também aqueles que temem a violência generalizada”. Em certos estabelecimentos da cidade, a demanda por cursos de manuseio de armamento chegou a quadruplicar após o início dos distúrbios locais.
Mudança no perfil dos armados
Instrutores e clubes de tiro têm notado uma diversificação no perfil dos frequentadores, que agora inclui indivíduos que se autodeclaram progressistas e buscam meios de proteção contra o que consideram uma política anti-imigratória agressiva da gestão Trump. Anteriormente, o porte de armas era majoritariamente associado a homens e eleitores republicanos, mas os dados atuais indicam um crescimento expressivo no interesse por parte de mulheres e membros da comunidade LGBTQIA+. Estima-se que um terço da população dos Estados Unidos possua armas de fogo, somando aproximadamente 500 milhões de equipamentos em circulação no território nacional, uma estatística que agora abrange um espectro ideológico mais amplo.
Um dos casos que ilustra a complexidade desse cenário é o do enfermeiro Alex Pretti, de 37 anos. Ele portava uma pistola devidamente licenciada quando teve a vida tirada após ser atingido por dez disparos efetuados por agentes federais. Apesar de possuir a licença e de não ter sacado o armamento durante a abordagem, o fato de estar armado foi utilizado pelas autoridades como justificativa para o ocorrido. A situação gerou reações diversas, inclusive entre correligionários do governo e membros da Associação Nacional de Rifles, criando um cenário onde a defesa do porte de armas acabou unindo, momentaneamente, grupos politicamente opostos.
Convergência de narrativas políticas
O episódio envolvendo Pretti e a reação subsequente demonstram como o argumento da autodefesa embaralhou as linhas divisórias tradicionais da política norte-americana. A necessidade de proteção pessoal diante de operações federais consideradas truculentas colocou progressistas na mesma linha de frente que conservadores no que tange ao direito de possuir armamento. Essa convergência de interesses, motivada por razões distintas, acaba por realimentar o ciclo de armamento civil no país, indicando que a insegurança jurídica e física percebida por diferentes estratos sociais continua a ser o principal motor para a aquisição de dispositivos letais nos Estados Unidos.



