Opinião

ALUNOS E ESTUDANTES: UMA BREVE REFLEXÃO

Reflexão sobre a vida na escola

Gustavo Uchôas Guimarães Professor de História em Elói Mendes, vive em Varginha. Historiador, escritor, pesquisador, poeta e um insaciável leitor e curioso. 

Publicidade

Em meus 19 anos como professor, dei aulas em 23 escolas de 6 cidades diferentes. Atualmente, estou em uma ótima escola, que vale as minhas idas e vindas entre Varginha e Elói Mendes. Essa experiência, aliada a uma constante busca por formação, traz algumas reflexões e ajuda a formar mentalidades. Claro que as pessoas não precisam, necessariamente, concordar com essas reflexões e constatações, pois constituem olhares de um professor que, no tempo histórico e em dadas realidades culturais e sociais, formula ideias que não têm a pretensão de serem universais. Uma dessas reflexões e constatações tem a ver com a distinção entre aluno e estudante.

O Brasil costuma lembrar o dia 11 de agosto como Dia do Estudante. É importante olhar para aqueles que pensam em seu futuro e são formados para os desafios da vida. Aliás, para além do mercado de trabalho, os estudantes são formados também para o exercício da cidadania e para o seu desenvolvimento integral (portanto, não se trata apenas de foco acadêmico e intelectual). Mas, na realidade das escolas brasileiras (e falo com a experiência de quem trabalhou em três redes privadas, uma rede pública municipal e várias escolas da rede pública estadual de Minas Gerais), muitas vezes há simplesmente alunos, ou seja, pessoas menores de idade matriculadas na escola sem, no entanto, estudar de fato. A esses, não chamo de estudantes. Aliás, em épocas que não sou aluno de nenhum curso, sou mais estudante do que alguns alunos que por mim passaram (ou ainda passam).

Publicidade

Como eu disse, as pessoas não precisam concordar com essa reflexão. Na verdade, eu a proponho neste texto a título de pensamento sobre realidades da educação brasileira. Por exemplo, a média do IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) sobe em muitos estados brasileiros, mas a média de notas no ENEM segue baixa em muitos desses estados; portanto, há algo errado e deve ser uma preocupação de pesquisadores da área da Educação, professores, gestores das escolas e cursos universitários (deveria ser também uma preocupação dos gestores de secretarias municipais e estaduais, além dos políticos, mas, no Brasil, é quase utópico imaginar que os altos escalões, salvo algumas exceções, vão se preocupar com a qualidade acima das estatísticas).

Além das discrepâncias nas médias de índices e provas (isso porque não mencionei as avaliações internacionais do PISA, em que o Brasil passa uma “vergonha retumbante”), é preciso olhar para outras realidades que os professores sabem descrever muito bem: a desestrutura de muitas famílias (quanto ao incentivo aos estudos e à valorização da escola e dos profissionais da educação), o desinteresse de muitos alunos (apesar das adequações metodológicas, algumas delas impostas pelos sistemas de ensino), as deficiências na formação inicial e na formação contínua dos professores, a pouca atratividade remuneratória (se considerar o quanto um professor recebe como salário em comparação com outras profissões que exigem o mesmo nível de formação), entre outras situações. Esse conjunto se soma às múltiplas chances que os alunos têm para avançar as séries escolares sem ter, necessariamente, aprendido: há inúmeras recuperações, provas para saltar séries, diversas provas de fim de ano para “empurrar” os alunos de uma série a outra (e tudo isso sob as ordens do sistema de ensino, que leva ao exagero a ideia de dar todas as oportunidades possíveis).

Aqui, está feita uma triste equação: (inúmeras oportunidades que “arrastam” alunos de uma série a outra em nome de boas estatísticas de aprovação) + (falta de valorização dos estudos, das escolas e dos professores) + (desinteresse dos alunos) = alunos que não querem estudar. Por essa razão, eu diferencio alunos e estudantes: nem todo aluno é estudante, nem todo estudante é aluno. Estamos vendo, a olhos vistos, a crise que torna mais rara uma “espécie” de seres humanos: os que têm prazer em estudar e reconhecem o valor dos estudos como ferramenta de crescimento pessoal, profissional e intelectual. Por outro lado, há uma chama de esperança em um mundo melhor, justamente porque esse tipo de seres humanos ainda existe. São pessoas que, no presente e no futuro, garantem lucidez, resistência, resiliência e perseverança a uma sociedade com preguiça de pensar.

Enquanto existirem essas pessoas, vale a pena dizer no 11 de agosto: “Feliz Dia do Estudante!” (não a todos os alunos, mas apenas aos que estudam).

Publicidade

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo