Lançamento de livro sobre letramento racial convida a refletir sobre uma educação verdadeiramente antirracista
Texto reflexivo para entender o racismo

Por: Elen de Souza
“Agora tudo é racismo.”
Provavelmente já ouviu essa frase. Ela costuma aparecer sempre que um caso de discriminação ganha repercussão ou quando o debate sobre as relações raciais ganha espaço nas escolas, nas empresas ou nas redes sociais.
Mas será que passamos a enxergar racismo em tudo? Ou será que, finalmente, estamos aprendendo a reconhecer situações que, durante muito tempo, foram naturalizadas?
A verdade é que vivemos em uma sociedade marcada por profundas desigualdades raciais. Muitas delas são tão antigas que acabaram sendo incorporadas ao nosso cotidiano como se fossem normais. E é justamente por isso que, quando alguém questiona essas estruturas, a reação costuma ser de incômodo.
Inclusive, o próprio conceito de racismo estrutural só passou a fazer parte das conversas do dia a dia há poucos anos. Embora o movimento negro e diversos pesquisadores discutam esse tema há décadas, foi recentemente que a expressão ganhou força fora da universidade, especialmente após a publicação da obra Racismo Estrutural, de Silvio Almeida. O conceito nos ajuda a compreender que o racismo não está apenas em atos individuais de preconceito, mas também nas instituições, nas oportunidades, nas políticas públicas e em práticas que muitas vezes reproduzimos sem perceber.
É nesse contexto que o letramento racial se torna tão importante. Ele não busca fazer as pessoas se sentirem culpadas, nem incentivar uma caça ao racismo em tudo o que acontece. Seu objetivo é ampliar nossa compreensão sobre a sociedade, desenvolver um olhar mais crítico e nos ajudar a identificar desigualdades que, por muito tempo, permaneceram invisíveis ou foram tratadas como naturais.
Foi refletindo sobre tudo isso que estive, no Museu das Favelas, em São Paulo, prestigiando o lançamento da obra “Letramento Racial na USP: um percurso” organizada pelo professor Raimundo Nonato, publicada pela Editora Ajeum. O livro reúne textos produzidos a partir do curso Letramento Racial, realizado no âmbito do Encontro USP Escola desde 2022.
Ao longo da formação, educadores foram convidados a repensar suas práticas e a refletir sobre como as relações étnico-raciais atravessam o cotidiano escolar. O resultado desse percurso é uma obra construída de forma coletiva, que reúne diferentes experiências, pesquisas e perspectivas sobre uma educação comprometida com a equidade e com o enfrentamento ao racismo.
Mais do que apresentar conceitos, o livro propõe um diálogo com quem está na escola todos os dias. Afinal, construir uma educação antirracista não depende apenas de leis ou de mudanças no currículo. Depende, sobretudo, de formação, escuta, disposição para aprender e coragem para rever práticas que, muitas vezes, reproduzem desigualdades sem que percebamos.
Saí desse lançamento com uma convicção ainda maior: o conhecimento não cria divisões. Pelo contrário, ele ilumina aquilo que, por muito tempo, permaneceu invisível.
Talvez seja justamente por isso que algumas pessoas tenham a impressão de que “agora tudo é racismo”. Na realidade, não é que o racismo tenha aumentado. O que aumentou foi nossa capacidade de identificá-lo, compreendê-lo e, principalmente, de não aceitá-lo como algo natural.
E esse é um passo fundamental para construirmos uma sociedade mais justa começando, como sempre, pela educação.



